quarta-feira, fevereiro 01, 2006

A duas semanas de Queretaro

Chegado ao salao nobre da alfândega, passada a porta de entrada, deparei-me com um agente devidamente fardado, com um bem conseguido bigode de 2 1/2" por 1/2" (medidas em polegadas como convém; para quem nao está familiarizado: 1"=2,54 cm) e com uma expressao de leao que passou a altura do cio e nao acasalou.
- Parece contente por me ver!, pensei eu.
- ¿Su nombre?
- Vale, Daniel Vale (omiti o meu chiste mais recorrente quando trato de dizer o meu nome).
Preencheu um papel tipo formulário e pediu-me que aguardasse.
Retirando o meu olhar da autoridade, varri toda a área em que me encontrava de modo a encontrar lugar numa das 30 cadeiras que existiam. Nao foi de todo difícil, visto só estarem para além de mim, mais 3 pessoas (um africano e dois jovens destes lados). Porém o meu estado de ansiedade nao me permitia um correcto reconhecimento do local, acabando por me sentar numa cadeira a 2 passos de mim (e já que estamos numa onda de conversao de unidades, dois passos meus sao aproximadamente 5 pés, ou seja, pouco mais de 1,5 metros). A espera foi curta... Tardou nao mais de 30 minutos (que para o meu sistema emocional equivaleu a algo parecido como... uma eternidade!). Durante este período tentei entrar nas mentes daqueles que me rodeavam, procurando imaginar cenários que os tivessem guiado a tal sítio, mas foi-me difícil. A dada altura, lembro-me apenas de estar a olhar fixamente para o vigilante da sala e de recriar uma situacao doméstica, com ele como vítima de maus tratos conjugais. E nesse estado cataléptico permaneci até que me vieram buscar.
De volta ao primeiro ambiente acolhedor, dei de caras com uma nova personagem - o que parecia ser o chefe do terrível e assombroso pessoal aduaneiro.
- ¿Señor Vale, no?, comecou o primo versao mexicana do Scaramanga, o homem da pistola de ouro dos filmes do Bond, James Bond.
- Sí, soy yo, retorqui.
- Me parece que usted tiene un problema.
- ¿Un problema? perguntei. ¿Con quién?
- Al que parece no carimbó su pasaporte en los servicios aduaneros en Madrid.
- Ah sí. No hago ni idea.¿ Había que carimbalo?, respondi eu inocentemente.
- Naturalmente. Y además me informan que usted viene en trabajo y qu no lleva un visa para ese efecto, seguiu.
Esgotado com a situacao, tomei o controlo da narrativa e comecei:
- A ver si nos aclaramos. He venido en trabajo y preveo quedarme aprox seis meses. No llevo visa. Nadie me comentó nada a ese respecto, así que solo veo dos opciones: o bien que me toma todos los datos que quiera y me deja salir, con la certeza de que mañana alguién de la oficina se encargará de todo el tema y seguramente lo arreglará o bien que me pone en el proximo vuelo y yo encantado de la vida, me volveré a Lisboa. Así que usted me diga!
Terminado o discurso em pleno apogeu de confianca, virei-lhe as costas, dei um passo e sentei-me numa cadeira que me fazia sombra. Foi sem dúvida o ponto de viragem. Se bem me recordo, fez-me mais um par de perguntas, carimbou-me o passaporte e até me deu umas palmadinhas nas costas como gesto de boas vindas.

Cá fora à minha espera, tinha um mexicano muito simpático que tratava de erguer bem alto, um enorme cartaz com o nome da empresa. Senti-me em casa... por mais estranho que vos pareca.

Comecava assim a aventura........

terça-feira, janeiro 24, 2006

A duas semanas de Queretaro

Saída de Lisboa (10:40) com destino a Madrid (12:50)
Viagem normal e corrente sem nenhum episódio a merecer comentários.

Saída de Madrid (14:30) com destino a Cidade do México (20:25)
AeroMéxico. Já tinham ouvido falar desta companhia aérea? Eu também não. Para os que responderam que sim, leia-se: seta a apontar para a pergunta inicial, até que respondam negativamente. Arrogâncias aparte, a entrada no avião foi um pouco complicada. Não contava que me custasse tanto deixar o meu querido país e tudo o que lá existe dentro (ou pelo menos o tudo que conheço).

O embarque procedeu-se de uma forma tranquila, porém chegado ao assento que me atribuíram, dei caras com um pequeno ser todo ele amarelado (entenda-se clarito) e de sorriso rasgado a olhar para mim. O lugar que me estava destinado era à janela, porém não quis levantar problemas com os pais que se sentavam na fila de cadeiras triplas ao lado. Sorri, perguntaram-me se o lugar ocupado pelo filho era o meu (ao que eu respondi que sim, mas que não havia qualquer inconveniente em sentar-me no coxim), guardei o que levava na mão nos compartimentos para o efeito e sentei-me, ou melhor, desfaleci. O cansaço era muito e aliado a isso, o desfalecer foi como que uma resignação da minha parte relativamente ao facto de que me esperava uma viagem de 12 horas e 9000 km distância e que nada poderia fazer para evitá-lo. Senti-me pequeno. Ainda mais pequeno que o fedelho de 3 ou 4 anos que se sentava a meu lado. Sem querer alargar-me muito em relação ao comportamento do puto durante toda a viagem (não vá ter o azar de me calhar um assim…), numa escala de Mercali, os meus EpiSensor registaram um pico correspondente a um sismo de intensidade 9, passadas 6 horas de voo e que se manteve durante as restantes 6 horas. Devo dizer que fiquei impressionado com a força e empenho que o chiquitín demonstrava no que toca ao desempenho da dura tarefa que lhe cabia: a de me chatear. A título de curiosidade foi aprovado com distinção.

Chegados ao aeroporto internacional de Benito Juaréz, despertaram-me o interesse os veículos encarregues de nos sacar do avião. Cada um deles era como uma caixa com rodas e com bancos dentro. Aproximava-se da aeronave e num movimento vertical, levitava em direcção à porta do avião. Recolhidos os passageiros, baixava lentamente ao encontro das quatro rodas que permitiam a deslocação do sistema.

Ainda fascinado com a chegada a uma nova realidade atravessei quase todo o aeroporto seguindo as indicações Pasajeros extranjeros provenientes de Europa, cujo caminho, pensei eu, me levaria a uma zona de tratamento VIP com comes e bebes que comemorariam a minha chegada. Escusado será dizer que nada disso se passou. O que não se previa era que levasse um tratamento do tipo mexicano a tentar entrar nos Estados Unidos à procura de uma melhor vida!
Chegado à zona da alfândega, dirigi-me a um dos vários balcões disponíveis para me carimbarem o passaporte e perguntaram-me ao que vinha, à qual eu respondi: “Em trabalho”. Imediatamente me perguntaram pelo visto correspondente à qual respondi arregalando os olhos como se não tivesse compreendido a pergunta. Inquiriu-me um par de vezes mais até que desistiu e me levou para uma salita onde reinava o temerário pessoal aduaneiro. Uma vez lá, o agente que me “apanhou” retirou-se da sala cabisbaixo, reverenciando desta feita um bem fardado señor que comodamente se sentava numa bem forrada cadeira em pele.

– “Siéntese, por favor.”, afirmou o sujeito.
– “¿Aquí, puede ser?”, respondi eu já vermelho apontando para uma cadeira em frente a ele.
– “Sí, ahí está bien.”, retorquiu.
– “¿Pues muy bien, Don...?”, começava.
– “Daniel. Daniel Vale. Con la e en el final”

E por mais estranho que pareça, toda a conversa que dali em diante se desenrolou, deve ter ficado gravada em alguma parte do meu cérebro da qual não tenho acesso ou que simplesmente não estou autorizado a remexer. Não deixa de ser estranho, mas acreditem que não é nada fácil lidar com uma situação destas, mesmo com a plena consciência de que nada de ilegal tenha sido cometido.
Terminada a conversa com o aprumadinho, mandaram-me para uma sala anexa com a promessa que me chamariam assim que resolvessem a situação. Levantei-me e lembro-me de ter pensado algo do tipo: "Tou fo#%!do. Ao menos que não me torturem. Por mim apanho já o próximo voo de volta!!!"

Continua...