A duas semanas de Queretaro
Saída de Lisboa (10:40) com destino a Madrid (12:50)
Viagem normal e corrente sem nenhum episódio a merecer comentários.
Saída de Madrid (14:30) com destino a Cidade do México (20:25)
AeroMéxico. Já tinham ouvido falar desta companhia aérea? Eu também não. Para os que responderam que sim, leia-se: seta a apontar para a pergunta inicial, até que respondam negativamente. Arrogâncias aparte, a entrada no avião foi um pouco complicada. Não contava que me custasse tanto deixar o meu querido país e tudo o que lá existe dentro (ou pelo menos o tudo que conheço).
O embarque procedeu-se de uma forma tranquila, porém chegado ao assento que me atribuíram, dei caras com um pequeno ser todo ele amarelado (entenda-se clarito) e de sorriso rasgado a olhar para mim. O lugar que me estava destinado era à janela, porém não quis levantar problemas com os pais que se sentavam na fila de cadeiras triplas ao lado. Sorri, perguntaram-me se o lugar ocupado pelo filho era o meu (ao que eu respondi que sim, mas que não havia qualquer inconveniente em sentar-me no coxim), guardei o que levava na mão nos compartimentos para o efeito e sentei-me, ou melhor, desfaleci. O cansaço era muito e aliado a isso, o desfalecer foi como que uma resignação da minha parte relativamente ao facto de que me esperava uma viagem de 12 horas e 9000 km distância e que nada poderia fazer para evitá-lo. Senti-me pequeno. Ainda mais pequeno que o fedelho de 3 ou 4 anos que se sentava a meu lado. Sem querer alargar-me muito em relação ao comportamento do puto durante toda a viagem (não vá ter o azar de me calhar um assim…), numa escala de Mercali, os meus EpiSensor registaram um pico correspondente a um sismo de intensidade 9, passadas 6 horas de voo e que se manteve durante as restantes 6 horas. Devo dizer que fiquei impressionado com a força e empenho que o chiquitín demonstrava no que toca ao desempenho da dura tarefa que lhe cabia: a de me chatear. A título de curiosidade foi aprovado com distinção.
Chegados ao aeroporto internacional de Benito Juaréz, despertaram-me o interesse os veículos encarregues de nos sacar do avião. Cada um deles era como uma caixa com rodas e com bancos dentro. Aproximava-se da aeronave e num movimento vertical, levitava em direcção à porta do avião. Recolhidos os passageiros, baixava lentamente ao encontro das quatro rodas que permitiam a deslocação do sistema.
Ainda fascinado com a chegada a uma nova realidade atravessei quase todo o aeroporto seguindo as indicações Pasajeros extranjeros provenientes de Europa, cujo caminho, pensei eu, me levaria a uma zona de tratamento VIP com comes e bebes que comemorariam a minha chegada. Escusado será dizer que nada disso se passou. O que não se previa era que levasse um tratamento do tipo mexicano a tentar entrar nos Estados Unidos à procura de uma melhor vida!
Chegado à zona da alfândega, dirigi-me a um dos vários balcões disponíveis para me carimbarem o passaporte e perguntaram-me ao que vinha, à qual eu respondi: “Em trabalho”. Imediatamente me perguntaram pelo visto correspondente à qual respondi arregalando os olhos como se não tivesse compreendido a pergunta. Inquiriu-me um par de vezes mais até que desistiu e me levou para uma salita onde reinava o temerário pessoal aduaneiro. Uma vez lá, o agente que me “apanhou” retirou-se da sala cabisbaixo, reverenciando desta feita um bem fardado señor que comodamente se sentava numa bem forrada cadeira em pele.
– “Siéntese, por favor.”, afirmou o sujeito.
– “¿Aquí, puede ser?”, respondi eu já vermelho apontando para uma cadeira em frente a ele.
– “Sí, ahí está bien.”, retorquiu.
– “¿Pues muy bien, Don...?”, começava.
– “Daniel. Daniel Vale. Con la e en el final”
E por mais estranho que pareça, toda a conversa que dali em diante se desenrolou, deve ter ficado gravada em alguma parte do meu cérebro da qual não tenho acesso ou que simplesmente não estou autorizado a remexer. Não deixa de ser estranho, mas acreditem que não é nada fácil lidar com uma situação destas, mesmo com a plena consciência de que nada de ilegal tenha sido cometido.
Terminada a conversa com o aprumadinho, mandaram-me para uma sala anexa com a promessa que me chamariam assim que resolvessem a situação. Levantei-me e lembro-me de ter pensado algo do tipo: "Tou fo#%!do. Ao menos que não me torturem. Por mim apanho já o próximo voo de volta!!!"
Continua...
terça-feira, janeiro 24, 2006
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