A duas semanas de Queretaro
Chegado ao salao nobre da alfândega, passada a porta de entrada, deparei-me com um agente devidamente fardado, com um bem conseguido bigode de 2 1/2" por 1/2" (medidas em polegadas como convém; para quem nao está familiarizado: 1"=2,54 cm) e com uma expressao de leao que passou a altura do cio e nao acasalou.
- Parece contente por me ver!, pensei eu.
- ¿Su nombre?
- Vale, Daniel Vale (omiti o meu chiste mais recorrente quando trato de dizer o meu nome).
Preencheu um papel tipo formulário e pediu-me que aguardasse.
Retirando o meu olhar da autoridade, varri toda a área em que me encontrava de modo a encontrar lugar numa das 30 cadeiras que existiam. Nao foi de todo difícil, visto só estarem para além de mim, mais 3 pessoas (um africano e dois jovens destes lados). Porém o meu estado de ansiedade nao me permitia um correcto reconhecimento do local, acabando por me sentar numa cadeira a 2 passos de mim (e já que estamos numa onda de conversao de unidades, dois passos meus sao aproximadamente 5 pés, ou seja, pouco mais de 1,5 metros). A espera foi curta... Tardou nao mais de 30 minutos (que para o meu sistema emocional equivaleu a algo parecido como... uma eternidade!). Durante este período tentei entrar nas mentes daqueles que me rodeavam, procurando imaginar cenários que os tivessem guiado a tal sítio, mas foi-me difícil. A dada altura, lembro-me apenas de estar a olhar fixamente para o vigilante da sala e de recriar uma situacao doméstica, com ele como vítima de maus tratos conjugais. E nesse estado cataléptico permaneci até que me vieram buscar.
De volta ao primeiro ambiente acolhedor, dei de caras com uma nova personagem - o que parecia ser o chefe do terrível e assombroso pessoal aduaneiro.
- ¿Señor Vale, no?, comecou o primo versao mexicana do Scaramanga, o homem da pistola de ouro dos filmes do Bond, James Bond.
- Sí, soy yo, retorqui.
- Me parece que usted tiene un problema.
- ¿Un problema? perguntei. ¿Con quién?
- Al que parece no carimbó su pasaporte en los servicios aduaneros en Madrid.
- Ah sí. No hago ni idea.¿ Había que carimbalo?, respondi eu inocentemente.
- Naturalmente. Y además me informan que usted viene en trabajo y qu no lleva un visa para ese efecto, seguiu.
Esgotado com a situacao, tomei o controlo da narrativa e comecei:
- A ver si nos aclaramos. He venido en trabajo y preveo quedarme aprox seis meses. No llevo visa. Nadie me comentó nada a ese respecto, así que solo veo dos opciones: o bien que me toma todos los datos que quiera y me deja salir, con la certeza de que mañana alguién de la oficina se encargará de todo el tema y seguramente lo arreglará o bien que me pone en el proximo vuelo y yo encantado de la vida, me volveré a Lisboa. Así que usted me diga!
Terminado o discurso em pleno apogeu de confianca, virei-lhe as costas, dei um passo e sentei-me numa cadeira que me fazia sombra. Foi sem dúvida o ponto de viragem. Se bem me recordo, fez-me mais um par de perguntas, carimbou-me o passaporte e até me deu umas palmadinhas nas costas como gesto de boas vindas.
Cá fora à minha espera, tinha um mexicano muito simpático que tratava de erguer bem alto, um enorme cartaz com o nome da empresa. Senti-me em casa... por mais estranho que vos pareca.
Comecava assim a aventura........
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
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